segunda-feira, 17 de outubro de 2011


- Não tá tudo bem, menina, e você sabe. Nem me pergunte. - Ele sorriu, meio pálido, enquanto apertava com força as minhas mãos expostas e abertas, prontas para acariciar seu rosto. Meus lábios se enlaçaram aos seus. Meus olhos se fecharam enquanto aquelas mãos podiam sentir, agora, os meus batimentos acelerados.

- Me desculpe, menino. Eu iria perguntar, e você também sabe. - Consegui dizer, com a voz rouca, quando nossos lábios se separaram. Eu ainda mantinha os olhos fechados, e as mãos dele, agora, se perdiam pelos meus cabelos. Mesmo tão fraco, ele conseguia ser o meu mundo, o meu sorriso favorito. E aquelas mãos ainda eram fortes e quentes. De olhos fechados, era quase como se estivesse tudo bem. Como se toda aquela doença não existisse. Como se ele fosse inteiro, meu, e não estivesse assim, tão debilitado. - Me desculpe. Gosto de perguntar. Manter a esperança é bom.

- Talvez, menina, talvez… Talvez fosse melhor que a gente se desapegasse. Talvez fosse melhor, sabe como é, quando chegasse a minha hora, e… Você sabe que eu não duro muito mais. - Fez questão de reforçar, claro. Lágrimas brotaram dos meus olhos, e fiz questão de negar. Impedi que ele continuasse o discurso, permitindo que meus lábios, ávidos pelos dele, se juntassem aos seus.

- Eu te amo, e sempre vai ser assim. Mesmo quando… - Não consegui completar. Ele apertou minha mão, me incentivando a continuar. Abri os olhos para encará-lo, mais de perto, para que, de alguma forma, todo o meu calor e esperança pudesse passar para ele. Se eu continuava viva e tentando, era por ele. Todo o meu amor era por e somente para ele. - Mas eu sei que você vai resistir. Eu sei. Tudo vai dar certo. Vai, sim. E mesmo que não dê, eu… Eu não me importo em sofrer, menino, desde que eu esteja ao seu lado. Quando chegar a hora. Mas meu menino… precisamos ser fortes. Precisamos ter esperança. - Confirmei, enquanto os meus lábios procuravam os dele. Aquelas mãos brincavam com os meus cabelos, passavam pelo meu peito, sentiam o meu coração, e, por fim, desenhavam minhas curvas. Mesmo doente, ele continuava irresistível. E ele era, ainda que mal, o meu menino, o meu sorriso, o meu motivo para simplesmente seguir em frente.

- Você é tão maravilhosa, meu amor. Gosto de pensar que você é um anjo sem asas. Ou… - Ele interrompeu-se por alguns instantes, enquanto sentia o meu corpo quente junto ao teu. Sorriu, mordeu meu nariz, bem fraquinho, e continuou. - Ou talvez apenas ainda não tenha encontrado-as.

- Eu amo você, pra sempre. Não importa o que aconteça. - Fiz questão de reforçar, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas. Meus dedos passavam levemente pelos contornos daquele rosto magro. Ele, agora mais do que nunca, era um menino. Uma criança. Tão fraco. E precisando tanto de mim… Eu jamais seria capaz de deixá-lo. Jamais… Mesmo quando tudo acabasse, eu…

Meus olhos se encheram de lágrimas com o pensamento. O que seria de mim se ele não estivesse por perto? Quem cantaria, desafinado, fazendo minhas noites frias e escuras de inverno se tornarem muito mais divertidas e aconchegantes? Quem se aninharia nos meus braços, menino, e deitaria a cabeça em meu colo, implorando, baixinho, por um beijo suave doado pelos meus lábios? Quem mais? Quem mais seria capaz de tomar-me nos braços, de enxugar minhas lágrimas sentidas, de me encher de carinho, mesmo precisando disso muito mais do que eu, mesmo sofrendo, mesmo doendo, como ele fazia agora? Quem poderia ser tão… perfeito pra mim?

- Eu preciso mesmo dizer, minha anjinha, que você é o meu pedacinho de céu mais bonito? - Sorriu, sorriu com força. E pela primeira vez em tanto tempo, vi um brilho bonito como o brilho das estrelas iluminando seus olhos. Senti vontade de roubar aquele brilho pra mim, e, ao mesmo tempo, de fazer com que ele perdurasse.

- Eu te amo mais do que tudo. É uma força que me consome, um amor que me rouba as palavras… Só você consegue trazer à tona o meu lado mais clichê e bonito. Só você. Você é o único que… - Balancei a cabeça, sem mais saber o que dizer. De repente, a metade de uma cama de hospital tornou-se pequena para eu e todo o meu amor. - Eu… eu não sei o que seria de mim sem você. - Disse, para logo em seguida me arrepender. Um brilho de dor passou pelos seus olhos, mas desapareceu, ainda mais rápido. E eu me odiei. E sabia que me odiaria por isso, para todo o sempre. Ele não disse nada… Naquele instante, viu a dor em meus olhos.

E me aninhou em seus braços, mesmo precisando de carinho. E cuidou de mim como se eu fosse o seu bem mais precioso, o seu diamante, a sua jóia rara. O seu sorriso. E eu era. Eu sabia que era.

- Mesmo que nós não fiquemos juntos por mais muito tempo nessa vida, meu amor… O meu amor por você será eterno. - Encerrou, acalmando meu coração, fazendo com que meus medos se escondessem nos lugares mais profundos de minha alma, e trazendo de volta ao meu rosto o meu sorriso mais sincero. E, meu Deus. Eu o amaria para todo o sempre. Até depois que o meu pequeno coração - agora acelerado pela sua presença - deixasse de bater.

"Mais uma fiction"