domingo, 23 de outubro de 2011


Olhou com os olhos meio turvos de lágrimas, e puxou-a para um último abraço. O peito doía de falta antecipada, as mãos tortas insistiam em tentar criar expressões que justificassem aquela partida que acontecia muito antes do que deveria acontecer. Mas, no fundo, ele sabia. Aquela era a hora certa, a hora exata. Um minuto a mais, juntos, poderia destruí-los. É que, na verdade, os dois eram fortes demais, explosivos demais. Eram demais para viverem juntos. Poderiam destruir um ao outro, um pouco mais a cada dia, até não restar mais nada além de restos de alma e choro que seria infinito. Era a hora, aquela. A hora exata.

- Bom, você sabe… Você entende meus motivos no fundo. - Ele fez questão de dizer.

Ela cruzou os braços, emburrada, até que seu semblante tornasse-se desesperado e incrivelmente infantil. Lágrimas espalhavam-se pelo seu rosto, sempre tão sorridente, e de repente era como se ela fosse apenas uma menininha fazendo pirraça. O filme de amor ainda gritava, a televisão estampava beijos, amores e juras eternas. Hipocrisia. Queriam ambos viver dentro daquele filme, e de repente tornarem-se protagonistas de um daqueles filmes de amor eterno e sem falhas. Mas não era daquele jeito, e qualquer um dos dois podia tranquilamente afirmar. Era muito mais complexo do que qualquer uma daquelas coisas. Eram demais. Um era demais para o outro, de um jeito que uma relação simples como aquela não podia aguentar. A linha fina que os ligava uma hora iria terminar. Os dois puxavam muito forte, para lados opostos. Tinham personalidade densa, tinham um sonhos estranhos. Mas eram diferentes demais para continuarem juntos.

- Eu não me importaria em morrer com você, sabe? Se a gente se destruísse… A gente morreria bem mais fundo se estivesse separado. Sabe? Se é que me entende… A gente morreria mais rápido. - Ela lamentou.

Ele segurou aquelas mãos, que tremiam, beijando-lhe os dedos. Um leve maneio de cabeça foi suficiente para que ela percebesse que ele não voltaria atrás. Nem por amor. Era teimoso demais para isso. Era tudo demais. E nunca vira ele mudar de opinião. Ressentida, afastou-se. Ainda tremendo, encolhida em uma bola, apertou o sofá e deixou que as lágrimas manchassem o tecido. Ele suspirou, vencido, e acabou sentando-se ao seu lado. Um longo silêncio envolveu-os. Era o silêncio mais triste que ambos um dia iriam presenciar.

- Não dá, menina. A gente ia se matar se ficasse junto. Talvez até literalmente. - Ele riu, sarcástico.

Aquela risada atingiu-a no âmago, mas ela ainda conseguiu fingir um sorriso. Era doloroso demais ter que encará-lo e ainda forçar uma emoção boa, como se ela sentisse ainda algo de bom naquele momento. Tudo o que sentia era trevas, dor, ódio, raiva, desespero. E medo. O medo era a emoção mais forte que ela sentia naquele momento.

Medo de perdê-lo e de encontrar-se. Pois se perdia quando estava com ele. E sabia que poderia perder-se para sempre, desde que ele estivesse por perto. Não queria entender nada, não queria encontrar, não queria saber. Bastava sentir.

- Eu sinto tanta coisa quando eu tô com você. Tanta coisa bonita, tanta coisa feia. Tanta coisa. De vez em quando, eu sonho com você me puxando pra dançar. Mas em outras vezes eu tenho pesadelos. De você indo embora. De você fazendo as malas e me largando no meio da escada. Ou de mim caindo de um precipício, por você não estar parado pra me segurar.

E então lágrimas continuaram a cair, cada vez mais intensas. E ele segurou aquelas mãos com força, como se, assim, pudesse mantê-las junto às dele. Dos olhos escapavam as mais intensas lágrimas que ele um dia chorara. Doía muito ter de ir embora, doía muito precisar fazê-la doer. Era muito difícil simplesmente seguir, sem ter aquela presença.

Ele, ao contrário dela, costumava encontrar-se, ao seu lado.

Encontrava-se naquele sorriso, naqueles cantos, naquelas mãos, naqueles gestos. Encontrava-se agora, mais do que nunca, naquelas lágrimas.

- Não entende que te amo, menina? Que isso nunca vai mudar, nem mesmo em mil anos? - Ele questionou, curioso. Ela assentiu, disse que sabia, disse que tinha certeza absoluta de tal fato. Mas que não entendia, então porque ele estava indo embora.

Ele suspirou e limitou-se a olhá-la fundo, nos olhos. E de repente foi como se o mundo gritasse que não era justo que um amor tão fundo acabasse por causa de coisas tão rasas.

- As borboletas hoje estão mais fortes, sabe? Elas já se tornaram minhas amigas íntimas.

Ela ainda conseguiu rir, tirando humor de toda a desgraça.

Ele beijou-a nos lábios, e de repente foi como se o mundo fizesse algum sentido. As borboletas, desesperadas, agitaram-se de um lado a outro de seu estômago. A vida ganhou cor. O desespero cessou e as lágrimas tornaram-se mais fortes. Mas eram lágrimas de alegria. De felicidade. De contentamento, apenas por estar com ele ali, ao seu lado. As borboletas sorriam e as pernas tremiam, como se ela voasse, mesmo parada. Existia um mundo paralelo onde só os dois moravam. E aquele último beijo foi como uma última chama de esperança em um coração morto.

- Eu te amo, e sempre vai ser assim, não esquece, não se desespera. Mas vamos morrer separados, menina, que é mais seguro.

- Eu ia morrer de qualquer jeito mesmo.

- Eu sei. Mas talvez assim a gente sofra menos.

Chegou mais perto e abraçou-a. Aqueles braços e laços e encantos jamais se quebrariam, mesmo em mil anos de separação. Aquele amor seria eterno.

"Mais uma fiction"