
Você estava entediada menina, sentada sob uma grande árvore em um dia quente. Cheia de delírios é você, menina Alice. Mas seus delírios revelam-se verdades incontestáveis em meu coração. Foi em uma tarde dessas, de brisa calma e sol forte que avistei passando por ali um coelho com bolso de colete e relógio para tirar de lá. Coelho emburrado ainda que doce, resmungando sobre o tempo que passava depressa. Passei depressa também, minha doce Alice, e cai em seu país das maravilhas. Segui os passados das suas sapatilhas e os rastros de pano abandonados pelo teu vestido de cor azul. Em uma bela tarde parei junto ao chapeleiro para tomar um bom chá, acompanhado por tortas de morango. Encontrei a lagarta em uma viela escura, ainda com seu narguilé na boca questionando-me sobre quem sou. Você mesma, Alice, não sabia quem era você. Também sinto tal receio de não ser capaz de me explicar, doce menina. Lembra de quem você era pela manhã, e já perdeu o senso, o coração e a cabeça ao passar do dia. Perdi a mim também dentre as mudanças, menina. Perdi e já nem sei quem sou mais, só lembro de quem fui. Mas continuo acompanhando seus passos, mesmo quando estes me fazem sentir coisas esquisitas. Você avistou aquele frasco contendo um líquido, e o provou. Ficou pequena, tão pequenina. Ainda com o coração grande. Provou daquele bolo que estava sobre a mesa, e cresceu repetindo “Para cima ou para baixo?” Para cima, doce Alice. Para cima e para frente. Deixa para trás o mar feito com suas lágrimas, e vamos em frente. Desvendando seu país, e lutando contra toda a maldade da rainha de copas. Aprendi a ser menina pequena de coração grande junto ao seu vestido azul, pequenina. Quero assim como você, fazer algo de útil com a minha tão simples vida. Ainda temos tantas aventuras pela frente nesse mundo esquisito. Ou melhor, esquisitíssimo. Então, pequena, encontre-me junto ao Chapeleiro, prepararei uma torta de cereja, e servirei o chá. Ás quatro horas, por favor, menina, não deixe que o Gato a atrase com seus atalhos perdidos. E venha com a resposta, pois ando curiosa para saber: Qual a diferença entre um corvo e uma escrivaninha?